terça-feira, 26 de novembro de 2013

O que você tem feito por você?

Continuando com as reflexões que devemos nos fazer pra mensurar como temos cuidado de nós mesmos, segue um texto escrito por Fernanda Paraguassu, do site gnt.globo.com:


A pior mãe do mundo na terapia


“A mãe chegou arrasada na sessão de terapia.
- Estou me sentindo uma péssima mãe.
- Por quê? – perguntou a terapeuta.
- Explodi ontem à noite com as crianças.
- E daí?
- Como “e daí”? Uma boa mãe não explode assim com os filhos.
- Então você se considerava uma boa mãe até explodir?
- Acho que sim. Não sei. Pelo menos eu tento ser uma boa mãe.
- E o que você faz para “tentar ser uma boa mãe”.
- Eu vivo em função dos meus filhos. Às vezes sou pai, professora, contadora de história, cozinheira, motorista… Ontem tive que rodar a cidade atrás de uma cartolina verde musgo. Pode isso?
- E aí?
- E aí que a escola não faz a menor ideia de como isso é difícil. Eu fiquei três horas no trânsito, procurando papelarias, atrás de uma maldita cartolina verde musgo! Encarar um trânsito de hora de rush fora da hora do rush desestabiliza qualquer um.
- E a explosão?
- No fim do dia, cheguei do trabalho exausta, fiz o jantar, mandei tomar banho, ajudei no dever de matemática dele, desembaracei o cabelo dela, e ainda cortei as unhas. Quarenta unhas! É quase um trabalho em escala industrial! Eu nem lembro quando foi a última vez que fui no salão fazer as unhas.
(a terapeuta balança a cabeça num gesto indecifrável!)
- Chegou uma hora que ficou insustentável. Desapartei uma briga entre os dois, mandei desligar a televisão umas cinco vezes! E quando pensei que estavam na cama e me sentei para ver o Félix, eles apareceram de novo no corredor! Brigando!! Aí eu explodi!!! Foi feio! Gritei muito! Depois me arrependi.
- Por que se arrependeu?
- Porque, no fundo, eu sei que eles estavam cansados. E eu também. Depois que eles dormiram, fiquei ali, olhando os dois, pareciam anjinhos. Bateu um remorso, sabe? Fiquei me sentindo a pior mãe do mundo por ter gritado tanto com eles!
- Continua se sentindo a pior mãe do mundo?
- Sim. Só que eu me pergunto se uma boa mãe também não merece cinco minutos de paz para ver a novela. Acho que qualquer pessoa normal explodiria numa situação dessa.
- Será que você não está valorizando a coisa errada? Não está dando muito valor para um episódio pontual, como a sua explosão no fim do dia? E o resto das coisas que fez para seus filhos desde a hora em que acordou? Será que não está esquecendo disso tudo? E o que você tem feito por VOCÊ?
(silêncio)
- Hein? – insistiu a terapeuta.
- Há três semanas não vou na academia. Já estou ficando com as costas travadas.
Talvez esteja na hora de mudar algumas coisas na sua vida. E você já sabe como!
- Eu sei?
- Sabe. Você mesma disse aqui.
- Eu disse?
Você disse que “uma boa mãe também precisa de um pouco de tempo para si” e que “pessoas normais explodem”. Pense nisso. Vamos ficando por aqui, nos vemos na próxima semana.
A mãe olhou o relógio e estranhou que ainda faltavam quinze minutos para terminar a sessão. Levantou-se ainda meio desestabilizada com a conversa, mas seguiu em frente. Foi caminhando até o fim da rua.Decidiu parar na padaria da esquina e pediu um café. Olhou o relógio novamente e viu que ainda tinha mais dez minutos. Eram dez minutos só para ela! Pediu então um pão com queijo minas na chapa e lembrou que ainda não tinha almoçado.



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