A pior mãe do mundo na terapia
“A mãe chegou arrasada na sessão de terapia.
- Estou me sentindo uma péssima mãe.
- Por quê? – perguntou a terapeuta.
- Explodi ontem à noite com as crianças.
- E daí?
- Como “e daí”? Uma boa mãe não explode assim com os filhos.
- Então você se considerava uma boa mãe até explodir?
- Acho que sim. Não sei. Pelo menos eu tento ser uma boa mãe.
- E o que você faz para “tentar ser uma boa mãe”.
- Eu vivo em função dos meus filhos. Às vezes sou pai, professora, contadora de história, cozinheira, motorista… Ontem tive que rodar a cidade atrás de uma cartolina verde musgo. Pode isso?
- E aí?
- E aí que a escola não faz a menor ideia de como isso é difícil. Eu fiquei três horas no trânsito, procurando papelarias, atrás de uma maldita cartolina verde musgo! Encarar um trânsito de hora de rush fora da hora do rush desestabiliza qualquer um.
- E a explosão?
- No fim do dia, cheguei do trabalho exausta, fiz o jantar, mandei tomar banho, ajudei no dever de matemática dele, desembaracei o cabelo dela, e ainda cortei as unhas. Quarenta unhas! É quase um trabalho em escala industrial! Eu nem lembro quando foi a última vez que fui no salão fazer as unhas.
(a terapeuta balança a cabeça num gesto indecifrável!)
- Chegou uma hora que ficou insustentável. Desapartei uma briga entre os dois, mandei desligar a televisão umas cinco vezes! E quando pensei que estavam na cama e me sentei para ver o Félix, eles apareceram de novo no corredor! Brigando!! Aí eu explodi!!! Foi feio! Gritei muito! Depois me arrependi.
- Por que se arrependeu?
- Porque, no fundo, eu sei que eles estavam cansados. E eu também. Depois que eles dormiram, fiquei ali, olhando os dois, pareciam anjinhos. Bateu um remorso, sabe? Fiquei me sentindo a pior mãe do mundo por ter gritado tanto com eles!
- Continua se sentindo a pior mãe do mundo?
- Sim. Só que eu me pergunto se uma boa mãe também não merece cinco minutos de paz para ver a novela. Acho que qualquer pessoa normal explodiria numa situação dessa.
- Será que você não está valorizando a coisa errada? Não está dando muito valor para um episódio pontual, como a sua explosão no fim do dia? E o resto das coisas que fez para seus filhos desde a hora em que acordou? Será que não está esquecendo disso tudo? E o que você tem feito por VOCÊ?
(silêncio)
- Hein? – insistiu a terapeuta.
- Há três semanas não vou na academia. Já estou ficando com as costas travadas.
- Talvez esteja na hora de mudar algumas coisas na sua vida. E você já sabe como!
- Eu sei?
- Sabe. Você mesma disse aqui.
- Eu disse?
- Você disse que “uma boa mãe também precisa de um pouco de tempo para si” e que “pessoas normais explodem”. Pense nisso. Vamos ficando por aqui, nos vemos na próxima semana.
A mãe olhou o relógio e estranhou que ainda faltavam quinze minutos para terminar a sessão. Levantou-se ainda meio desestabilizada com a conversa, mas seguiu em frente. Foi caminhando até o fim da rua.Decidiu parar na padaria da esquina e pediu um café. Olhou o relógio novamente e viu que ainda tinha mais dez minutos. Eram dez minutos só para ela! Pediu então um pão com queijo minas na chapa e lembrou que ainda não tinha almoçado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário